Sonhos

Os sonhos não são lugares para onde fugimos da realidade. Eles também não são alienações ou perca de tempo. Os sonhos são um lugar onde nos encontramos com nós mesmos, com os segredos e as sensações mais singulares e individuais que possamos experimentar. Desvendá-los às vezes é útil para a clínica, mas, sinceramente, vive-los é muito mais valioso e prazeroso. Claro que às vezes uso da psicanálise e da semiótica para decifrá-los mas, quando vejo que estou esquartejando sua beleza eu evito continuar. Afinal de contas, os sonhos também podem ser admirados pela singeleza de seu realismo fantástico e não apenas pelo que podem esconder ou revelar sobre nosso inconsciente.

Sonhei com uma amiga de facebook. Estávamos em outro país, era um país encantado. Tudo era meio mágico. Eu fui caminhando com ela até sua casa, pois ela precisava de companhia já que às vezes é perigoso para algumas pessoas sair sozinha pelas ruas. Ela estava feliz. Eu estava feliz. Havia esperança e leveza. A morte e a sobrevivência econômica não eram uma questão. Ela chegou até a sua porta e uma amiga já a esperava. Era uma casinha linda, dessas de interior, com plantas nas janelas e muita sombra. O clima era agradável e as cores eram suaves. Depois fui voando para minha casa. É tão bom quando fazemos isso em nossos sonhos. Eu estava verificando aquelas casas e prédios tão bonitos, no estilo inglês do século passado. Tudo feito com tijolinhos de argila vermelha manchados de carvão. Algumas árvores apareciam com poucas folhas e muitos galhos, enquanto outras só apresentavam galhos finos e compridos, desfolhados e negros como dedos querendo tocar o céu.    Quando cheguei a minha casa lá estava minha irmã e minha avó. Havia uma linda varanda e a casa parecia bem arejada, com primeiro andar, mas, pequenina. Da varanda eu via o terraço da frente onde existia muita fuligem e carvão sob tijolos onde provavelmente se cozinhava castanhas ou coisas semelhantes. O cheiro era bom, não fazia calor. O céu era de um branco fosco acinzentado com sugestões suaves de azul pálido. Ao retornar para o interior da casa, descendo as escadas e chegando próximo à cozinha, percebi que eu estava na casa onde cresci. E a experiência de segurança e despreocupação me suspendia. Minha avó estava lá. Eu estava feliz e não havia pensamentos tristes, pesados ou densos. Tudo era apenas felicidade, beleza e conforto.

O sonho nos toca profundamente. Este em especial acariciou a criança que eu sou, com delicada gentileza. Senti amparo e confiança. Foi um sonho que me convidou especialmente para vê a sua própria beleza. A beleza da paisagem externa e como ela se comportava dentro de mim com carinho e amor. Um sonho visual. Espero que quando eu adormecer ou morrer possa voltar novamente para ele. Em momentos assim a gratidão é a única resposta que podemos oferecer ao universo da nossa própria mente.

 

Esta crônica me inspirou a escrever este livro:

 

 

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