Um pouco de pimenta na alma

Com os olhos fixos no teto, eu disse a mim mesmo “este quarto vai me matar!”. E sai. Levantei-me da cama e corri dali. Coloquei uma camisa que uso para fazer minhas pinturas e entrei no elevador. Uma camisa azul quadriculada, toda manchada de cores fortes, amarelos desnecessários, das tintas que uso para produzir minhas obras de arte. Depois que já havia me levantado, apenas no espelho do elevador é que eu percebi que meus cabelos haviam declarado uma guerra contra o bom gosto. Quando cheguei ao mercado onde eu iria comprar alguns doces para comer, estava fechado. Fiquei olhando para aquelas grades enormes contra mim e imaginando o que eu iria fazer para resolver o meu problema. Eu estava com fome mas, sem nenhum apetite. Passei o dia inteiro no quarto, de cama. Eu não estava vestido apropriadamente para ir até a orla, afinal de contas eu estava destruído de dentro pra fora. Mas, eu precisava comer antes que ficasse menos disposto ainda. Comer, às vezes, me anima. Então pensei que se eu fosse rapidinho o suficiente buscar um pote de açaí com granolas num desses quiosques da praia, e pedisse que colocassem em uma embalagem para viagem, voltaria em poucos minutos e ninguém me perceberia naquelas condições emocionalmente e esteticamente tão precárias.

No caminho, antes de chegar à praia, percebi que havia uma pequena conveniência numa das esquinas. “Aqui deve ter algumas guloseimas”. Saber que eu não precisaria ir tão longe me expor a uma multidão desnecessariamente, acordou uma discreta alegria no canto dos meus lábios. Um lugar simples e bem iluminado. Com pessoas comuns, provavelmente moradores dos prédios à volta, reconheci até mesmo um deles da lotérica que costumo frequentar para fazer depósitos. As pessoas pareciam felizes. Alguns estavam de sandálias, assim como eu, e outros de sapatos e bem vestidos. Um deles, só para chocar a minha civilidade, usava sapatilhas estampadas com folhas verdes e rosas escandalosamente vermelhas. Depois de perceber este impropério decidi que eu não estava tão mau vestido assim, cortei as pessoas e entrei no estabelecimento.

-Rápido, moça! –Entreguei à menina do caixa alguns biscoitos de chocolate e um pote de sorvete de creme que havia encontrado nas prateleiras, à venda; mas de repente, antes que eu concluísse a compra, o que eu temia me aconteceu.

-Guilherme… –Fechei os olhos para não acreditar que alguém havia me reconhecido. Tarde demais. Tive que me virar e olhar para trás. Um primo. Na verdade um dos meus primos favoritos.

-Oooi- Respondi alegre e decidido, enquanto arrumava melhor a camisa e os cabelos que me pareceram mais revoltos ainda. Deixei tudo no caixa, sem explicações, e fomos à mesa onde ele estava com alguns amigos. Ficamos em dois casais e eu, que era o estranho da mesa, a conversar sobre meu sofrimento do dia. Afinal de contas, o que eu precisava mesmo era falar.

-Por quê você ficou assim o dia todo, tão sem energia e cabisbaixo?- Perguntaram-me depois que eu já havia começado a desabafar.

-Bem, tudo começou com uma leve discussão que eu tive antes de ontem e até agora estou assim, devastado.

Falei muito. Eu precisava. Uma fala, ou escrita, para ser verdadeira precisa ser sobre a gente. Toda vez que escrevo é porque estou morrendo de despersonificação. Como um peixe fora d`água que precisa de um pouco de palavra antes que seja tarde demais. Depois que eu me deixei falar mais de meia hora enfeiando a situação que havia me feito ficar tão desconfortável comigo mesmo, chegou um ensopado de frutos do mar e logo depois um prato regional por indicação de um dos amigos do meu primo “sei que você vai adorar”. Eu caprichei na pimenta, que estava ótima, e que levantou meu ânimo sem demora. Ruborizei satisfeito. Minha disposição ganhou um vigor que eu havia perdido de vista. Às vezes o que precisamos é conversar, reconstruir quem somos para um pequeno público que se disponha a ouvir. Não demorou e eu já estava cantando La vie en rose.  

-Você melhorou… –Disseram satisfeitos.

-Quando alguém nos pisa, e ficamos bem pequenos por dentro, parece que sumimos para sempre. Como se só nos restasse à carcaça do corpo sem pessoa dentro. Meu corpo estava jogado, despersonificado, sob minha cama, vazio de sua alma. A consciência, que costumo chamar de espírito, sabia da dor que estava sentindo e de sua paralisia. Freud chama isso de pulsão de morte. Mas, eu não conseguia produzir nenhuma narrativa, nenhuma história ou vibração de personalidade. Foi então que encontrei na escuta de vocês a oportunidade de me reinventar.

Nessa hora eles se olharam, -Só não exagere na cerveja… –Rimos alto, como crianças histéricas, e brindamos.

No final, quando nos despedimos, fui o primeiro a ir embora enquanto eles ainda conversavam marcando suas próximas aventuras. E eu, segui feliz e solitário, imaginando como viveria os próximos capítulos da minha vida.

No Comments

Leave a Comment

Your email address will not be published.